São duas da manhã, estou com insônia, já tentei todos os lados
possíveis da minha cama, mas meus pensamentos divagantes não me deixam chegar ao sono. Resolvo pegar meu celular, colocar Division Bell, abrir minha janela e
ficar olhando para o céu. Agora todos meus pensamentos estão voltados para as estrelas, estou pronto para seguir viagem.
Existia uma felicidade inexplicável quando saía viajar de madrugada com meus pais. Olhava para o céu estrelado, e ficava imaginando do porquê da lua e das estrelas estarem me seguindo, justo eu, pequeno guri, que não sabe de nada e apanha por conversar na missa. Minha mãe sempre me dizia que "Quando a pessoa morre ela vira uma estrela, a sua vó já virou uma, e é por isso que elas te seguem, estão te cuidando". Eu ficava meio decepcionado, tinha muitas ideias mirabolantes em minha cabeça, pensava em restaurantes gigantes flutuando no céu, espaçonaves prontas para atacar a terra que nem o filme que tinha alugado na locadora no último fim de semana ou pedras imensas do tamanho de casas que brilhavam no escuro. E assim uma criança de 8 anos perdia sua curiosidade pelas estrelas por um tempo.
Era um ano meio estranho, estava em uma cidade nova, morando longe dos pais pela primeira vez, minha cabeça estava prestes a receber diversas bombas de novidades e novas amizades. Toda a minha base de educação, tanto familiar quanto escolar, havia sido baseada em dogmas religiosos, eu era um jovem que rezava toda a noite e ia pra missa sempre que podia, as vezes surgia desconfiança por nunca ter orações específicas atendidas, principalmente aquelas que pediam por amores adolescentes e vitórias do time de futebol, mas nada o suficiente para desacreditar. Então, em um dia tedioso de férias, estava em casa vendo vídeos no youtube quando encontro um com o nome "O pálido ponto azul". Apertar o play aquela hora mudou todo meu futuro. Aquele turbilhão de novidades, simplesmente havia aumentado drasticamente, fui pesquisar sobre o Universo, filmes, livros, séries pulavam na minha frente. Não, eu nunca tinha visto 2001: A Space Odissey ou Star Wars, não eu nunca tinha lido O guia do mochileiro das galáxias, não eu nunca tinha visto Cosmos do Carl Sagan. Acabaram sendo meu filme, livro e série favoritos até hoje.
Enfim a curiosidade sobre as estrelas, estava de volta em minha vida. Como uma criança, queria aprender e saber de tudo sobre a imensidão que acabava de redescobrir, me interessei pela ciência, que em todo o ensino fundamental e médio havia sido extremamente básica (talvez se isso tivesse sido diferente estaria escrevendo um artigo cientifico sobre astrofísica ao invés de uma declaração amorosa para o universo). Chegou uma hora que percebi que tinha parado de rezar antes de dormir, não sentia mais necessidade de ser guiado por alguém maior e invisível, estava tudo na minha frente, ou melhor, sobre minha cabeça, o tempo todo. O cosmos é por quem eu tinha que dedicar a minha vida, que agora fazia muito mais sentido do que em qualquer outro momento. Não acreditava mais em seres superiores me guiando, apenas em seres com tecnologia superior que poderia parecer mágica.
Perceber que o universo é imenso e que não passamos de uma pequena parte como se fossemos um grão de areia em um deserto continental, ao contrário do que muitos pensam, se sentir triste ou insignificante não passaram por meus pensamentos, pela primeira vez me dei conta de que eu era uma peça chave para tudo, eu fazia parte do cosmos, eu era o próprio universo. Uma paixão pela vida tomou conta de mim, todos meus pensamentos sobre ela que terminavam confortados pela vida eterna depois da morte passaram a ideias filosóficas que a vida é tudo o que tenho, e quanto eu mais viver, mais saberei sobre a vida o universo e tudo mais. O nosso planeta pode ser o único, em todo o universo, que passou da matéria orgânica para a vida e essa evoluiu para uma espécie que realmente entende que faz parte do cosmos, somos poeira de estrelas, somos um relato histórico de dimensões infinitas. Carl Sagan fala disso em quase todos os episódios da série "Cosmos" mas com uma frase do Pale blue dot que ele diz tudo:
"A tiny blue dot set in a sunbeam. Here it is. That's where we live. That's home. We humans are one species and this is our world. It is our responsibility to cherish it. Of all the worlds in our solar system, the only one so far as we know, graced by life."
Agora estou sentado de frente para minha janela, olhando as mesmas estrelas, os sinos de High Hopes começam a tocar, uma hora que pareceu durar uma eternidade, há um sorriso estampado na minha cara, o mesmo sorriso que havia na criança que era seguida pela lua. De repente algo cruza o céu, me ajeito na cama, agarro minha toalha, percebo que é apenas mais um cometa, ainda não é a minha carona, mas não falta esperança.
No livro Cosmos, de Carl Sagan, quando Ellie está conversando com o proprietário de um estação espacial que disponibiliza vendas de viagens para o espaço, ele propõe uma ideia que indica a sua paixão pelo universo e quão magnifico é ter suas últimas horas vislumbrando o todo:
"E o melhor seria se a nave não voltasse. Suas últimas horas, cercadas pelo espaço, por estrelas e astros. Se você tivesse uma doença incurável, ou mesmo se quisesse dar a si própria um magnífico presente final, que poderia ser melhor do que isso?"
Existia uma felicidade inexplicável quando saía viajar de madrugada com meus pais. Olhava para o céu estrelado, e ficava imaginando do porquê da lua e das estrelas estarem me seguindo, justo eu, pequeno guri, que não sabe de nada e apanha por conversar na missa. Minha mãe sempre me dizia que "Quando a pessoa morre ela vira uma estrela, a sua vó já virou uma, e é por isso que elas te seguem, estão te cuidando". Eu ficava meio decepcionado, tinha muitas ideias mirabolantes em minha cabeça, pensava em restaurantes gigantes flutuando no céu, espaçonaves prontas para atacar a terra que nem o filme que tinha alugado na locadora no último fim de semana ou pedras imensas do tamanho de casas que brilhavam no escuro. E assim uma criança de 8 anos perdia sua curiosidade pelas estrelas por um tempo.
Era um ano meio estranho, estava em uma cidade nova, morando longe dos pais pela primeira vez, minha cabeça estava prestes a receber diversas bombas de novidades e novas amizades. Toda a minha base de educação, tanto familiar quanto escolar, havia sido baseada em dogmas religiosos, eu era um jovem que rezava toda a noite e ia pra missa sempre que podia, as vezes surgia desconfiança por nunca ter orações específicas atendidas, principalmente aquelas que pediam por amores adolescentes e vitórias do time de futebol, mas nada o suficiente para desacreditar. Então, em um dia tedioso de férias, estava em casa vendo vídeos no youtube quando encontro um com o nome "O pálido ponto azul". Apertar o play aquela hora mudou todo meu futuro. Aquele turbilhão de novidades, simplesmente havia aumentado drasticamente, fui pesquisar sobre o Universo, filmes, livros, séries pulavam na minha frente. Não, eu nunca tinha visto 2001: A Space Odissey ou Star Wars, não eu nunca tinha lido O guia do mochileiro das galáxias, não eu nunca tinha visto Cosmos do Carl Sagan. Acabaram sendo meu filme, livro e série favoritos até hoje.
Enfim a curiosidade sobre as estrelas, estava de volta em minha vida. Como uma criança, queria aprender e saber de tudo sobre a imensidão que acabava de redescobrir, me interessei pela ciência, que em todo o ensino fundamental e médio havia sido extremamente básica (talvez se isso tivesse sido diferente estaria escrevendo um artigo cientifico sobre astrofísica ao invés de uma declaração amorosa para o universo). Chegou uma hora que percebi que tinha parado de rezar antes de dormir, não sentia mais necessidade de ser guiado por alguém maior e invisível, estava tudo na minha frente, ou melhor, sobre minha cabeça, o tempo todo. O cosmos é por quem eu tinha que dedicar a minha vida, que agora fazia muito mais sentido do que em qualquer outro momento. Não acreditava mais em seres superiores me guiando, apenas em seres com tecnologia superior que poderia parecer mágica.
Perceber que o universo é imenso e que não passamos de uma pequena parte como se fossemos um grão de areia em um deserto continental, ao contrário do que muitos pensam, se sentir triste ou insignificante não passaram por meus pensamentos, pela primeira vez me dei conta de que eu era uma peça chave para tudo, eu fazia parte do cosmos, eu era o próprio universo. Uma paixão pela vida tomou conta de mim, todos meus pensamentos sobre ela que terminavam confortados pela vida eterna depois da morte passaram a ideias filosóficas que a vida é tudo o que tenho, e quanto eu mais viver, mais saberei sobre a vida o universo e tudo mais. O nosso planeta pode ser o único, em todo o universo, que passou da matéria orgânica para a vida e essa evoluiu para uma espécie que realmente entende que faz parte do cosmos, somos poeira de estrelas, somos um relato histórico de dimensões infinitas. Carl Sagan fala disso em quase todos os episódios da série "Cosmos" mas com uma frase do Pale blue dot que ele diz tudo:
"A tiny blue dot set in a sunbeam. Here it is. That's where we live. That's home. We humans are one species and this is our world. It is our responsibility to cherish it. Of all the worlds in our solar system, the only one so far as we know, graced by life."
Agora estou sentado de frente para minha janela, olhando as mesmas estrelas, os sinos de High Hopes começam a tocar, uma hora que pareceu durar uma eternidade, há um sorriso estampado na minha cara, o mesmo sorriso que havia na criança que era seguida pela lua. De repente algo cruza o céu, me ajeito na cama, agarro minha toalha, percebo que é apenas mais um cometa, ainda não é a minha carona, mas não falta esperança.
No livro Cosmos, de Carl Sagan, quando Ellie está conversando com o proprietário de um estação espacial que disponibiliza vendas de viagens para o espaço, ele propõe uma ideia que indica a sua paixão pelo universo e quão magnifico é ter suas últimas horas vislumbrando o todo:
"E o melhor seria se a nave não voltasse. Suas últimas horas, cercadas pelo espaço, por estrelas e astros. Se você tivesse uma doença incurável, ou mesmo se quisesse dar a si própria um magnífico presente final, que poderia ser melhor do que isso?"
